Ótimo, temos energia — agora há que dominá-la
Esta frase, atribuída a Rudolf Diesel após uma explosão num dos seus protótipos, serve de metáfora para o apagão de 28 de abril de 2025. À data, as causas exatas ainda não são públicas, mas a hipótese mais plausível é uma falha na estabilidade da rede, agravada pela alta penetração de renováveis.
O incidente levantou uma questão legítima: será a aposta em energias intermitentes (eólica, solar), com o ritmo que está a ser feita, um risco que não deveríamos aceitar? A resposta é não. Portugal e Espanha, historicamente dependentes de importações, têm agora condições únicas para liderar a transição energética na Europa. Mas isso exige rapidez na implementação, escala, e escala exige integração entre as redes.
A interligação com Espanha, aprofundada nos últimos anos, tornou obsoletas soluções do passado. Até 2022, Portugal gastava milhões em centrais de reserva como o Pego (ineficientes e altamente poluidoras). Hoje, a mesma segurança é alcançada através do mercado ibérico — como provou, por exemplo, a importação de Espanha, de 4.693 MW em fevereiro de 2022, que evitou um colapso nacional.
O apagão de abril deste ano, porém, mostrou que a integração traz novos desafios sobretudo na estabilidade da rede. Ficar às escuras é grave? Sim. Mas a solução não é fechar fronteiras nem reduzir os investimentos — é reforçar a rede numa perspetiva ibérica. Para isso precisamos, entre outras medidas, de coordenação regulatória em tempo real entre os operadores ibéricos; Investimento em armazenamento (baterias de grande escala, centrais hidroelétricas reversíveis); Redes inteligentes capazes de detetar e corrigir falhas em segundos.
Temos capacidade para ser autónomos (como provam os dias sem importações após o apagão), mas a verdadeira segurança está numa rede ibérica resiliente. Como disse Diesel: “Ótimo, temos energia — agora há que dominá-la.”
Paulo Carreira da Silva
Publicado em 5/05/2025 no Jornal REGIÃO DE LEIRIA uma parceria com a Sedes – Associação para o Desenvolvimento Económico e Social
